Arquivo do mês: janeiro 2011

Um novo vestibular

Na minha prova do vestibular, fiz 80 questões de múltipla-escolha (marcar x) do tipo: “Qual o tipo de ovo dos artrópodes?”. As opções eram: telolécito, oligolécito, heterolécito e centrolécito. É óbvio que a resposta certa é centrolécito, porque os ovos dos artrópodes não têm polos e o vitelo está concentrado ao redor do núcleo.

Ovos e seus vitelos.

Convenhamos, se eu não tivesse adquirido esse conhecimento tão valioso, será que eu não estaria apto a entrar numa universidade?

Desde cedo, somos instruídos a compartimentalizar muito as coisas da vida: todas as disciplinas se fecham em si mesmas, todos os professores querem mostrar que sua disciplina é a mais importante, e quem sai perdendo com essa mesquinhez é o aluno, que tem que estudar coisas absolutamente desnecessárias pra vida.

Mas eu acho que todos já estão cansados de escutar os defeitos do nosso vestibular. Vou tentar trazer algumas soluções que pensei que talvez possam melhorar a avaliação dos candidatos, e que estejam mais contextualizadas com o mundo.

  • Primeiro: tem que ter mais questões abertas e discursivas. As questões têm que trazer problemas, reais ou não, e o aluno tem que responder escrevendo mesmo, usando os conhecimentos que tem. Ex.: um produtor de cana-de-açúcar tem uma pequena plantação de cana-de-açúcar. Levando em conta vários aspectos reais da plantação (tipo do terreno, forma do terreno, subprodutos da cana, entre-safra) e seus conhecimentos gerais, o que o produtor poderia fazer para aumentar os lucros? Nessa questão, o aluno poderia abordar: o terreno deve ser circular (maximiza área) ou quadrado (porque terreno circular é difícil né), deve ser feito um tratamento contra laterização (óxidos que atrapalham o desenvolvimento da cana), deve investir bastante no álcool por causa dos problemas com petróleo, na entre-safra poderia cuidar do bagaço da cana para biomassa etc etc.
  • Segundo: sou a favor de mais questões de opinião, mas opinião aberta mesmo, fugindo um pouco ao pragmatismo das dissertações. É nesse tipo de questão que vemos a mentalidade do candidato. Ex.: Qual sua opinião sobre a pirataria?. Seriam analisados: coerência, conhecimento sobre o assunto (inclusive argumentos contrários à sua opinião), coesão em todo o texto.
  • Terceiro: deve estimular a criatividade. Por exemplo: Imagine que a morte tenha tirado férias por tempo indeterminado, ou seja, ninguém mais morre, nenhum tipo de animal morre. Faça um prognóstico de como seria o mundo durante esse período de férias da morte. Nesse caso, seria avaliado um mínimo de coerência e coesão, mas interessaria muito mais a quantidade de aspectos que o candidato escreveria. (José Saramago tem um livro exatamente sobre isso; pra diferenciar, o assunto poderia ser: ‘imagine que ninguém mais nasça’)

Calma, ela tirou umas férias.

Eu entendo que a correção desses tipos de questões seria muito mais trabalhosa e subjetiva (talvez nem tanto), mas com certeza isso seria muito mais justo e construtivo para os estudantes. Imaginem só, em vez de decorar cada detalhe das algas rodofíceas e dinoflageladas, eles poderiam treinar a criatividade com alguma arte, algum livro, ou ler sobre alguma coisa da vida, porque isso seria cobrado no vestibular. Talvez assim os alunos se envolvam mais nos estudos, e o vestibular cumpra seu papel de selecionar os melhores alunos, e não as melhores máquinas.

Mesmo assim, são milhões de pessoas fazendo as provas, milhões de correções exaustivas, porque, afinal, todos querem entrar na universidade. Mas uma pergunta me veio à tona enquanto escrevia este post: será que a universidade deve ser para todos? Será que somos imbuídos desde criança a pensar que o único caminho para uma vida legal é a universidade? Será que se nossa criatividade e nosso autoconhecimento fossem desenvolvidos desde cedo na escola, não poderíamos pensar em outro caminho?

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Nossa educação mata a criatividade?

Olá. Este post é baseado no meu discurso no curso do meu amigo @manualdoheroi e num vídeo de Sir Ken Robbinson.

Quando eu estava cursando a disciplina de cálculo 3, estudando o assunto de integral de linha, a professora estava mostrando como calcular uma dada integral bem singular, que tinha duas variáveis de integração (não precisa entender isso). Eu não estava entendendo o modo padrão que a professora estava usando para explicar, então perguntei: “Professora, é como se eu estivesse integrando tal função no eixo x e tal função no eixo y?, e depois somo os dois resultados?”. Ela parou para pensar e disparou: “Não sei, estou aqui para fazer vocês calcularem“.

Pensei com meus botões: “Ué, o jeito que pensei faz todo sentido, e é muito mais fácil aprender dessa forma. Não seria melhor a turma toda entender assim?”.

A partir daí comecei a ver que a educação institucional mata nossa criatividade. Talvez possamos entender isso melhor com um teste que foi feito em algum lugar do mundo, em algum ano recente. Imagine um clip de papel.

Sim, um clip de papel.

Agora, pergunto: “Quais os possíveis usos de um clip de papel?”. Fale tudo o que vem à sua cabeça. (Tempo para pensar…)

10, 9, 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1, 0.

Acabou o tempo. É bastante provável que as respostas mais comuns tenham sido as mais esperadas: tudo relacionado a papel, ou destrancar portas. Entretanto, o teste original foi feito com crianças de 5 a 9 anos, e as respostas foram: “O clip pode ser de borracha?, pode ter 3 metros de altura?, pode ser colorido?”.

Para chegar aonde desejo, contarei outra historinha. Uma menininha de 5 anos estava na sala de aula, mas não prestava atenção na aula, estava compenetrada desenhando no caderno. A professora percebeu e chegou junto dela. Viu um desenho bem colorido, bem imaginativo, muito incomum – criativo. Perguntou-lhe:

– O que você está desenhando?.

– Deus.

– Ora, mas ninguém sabe como Deus é!, ninguém sabe sua aparência!

– Daqui a 5 minutos todo o mundo vai saber.

Imagem retirada de anacristinasouza.arteblog.com.br

Mas qual terá sido a principal diferença entre nós, vigorosos jovens e adultos, e essas crianças? Básica: nós fomos educados, nossa mente foi ‘contaminada’ pela educação institucional. Com a educação padronizada, é comum perdermos a capacidade de criar, porque temos o receio do erro. A verdade é que fomos educados para não errar, porque essa é uma educação voltada ao meio empresarial, onde um erro pode custar milhões de reais. Mas é o erro, principalmente na juventude, que propicia o crescimento e a felicidade pessoal. É o erro que nos permite descobrir qual é o nosso sonho, qual é a atividade na vida que nos faz sentir bem.

Todos nós nascemos artistas, mas somos educados para desprezar esse talento, porque matemática e português são muito mais importantes do que música e teatro. Será que a arte é tão não-importante assim? A arte estimula a criatividade, a experimentação, o questionamento, em todos os ramos. O nosso mundo precisa disso.

Quando foi a última vez que você fez algo criativo?

Não estou dizendo para abandonarmos as matérias ‘normais’, até porque existem artistas em todos os ramos, inclusive na ciência. Quero dizer que nosso ensino não pode nos privar da nossa arte.

Então, conto com os assíduos leitores deste blog para não deixar a criatividade esvanecer. Estimulem-na, não se inibam. Falem muita besteira, isso é muito bom pra criatividade. Pensem sempre como uma criança.

E pensem nisto: sendo a arte tudo aquilo que lhe fortalece a criatividade, qual é a sua arte? Como estimular a arte nas escolas e universidades?

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Um novo modo de fazer anotações em aula

Olá.

Quando eu era mais jovem, frequentando ensino fundamental e ensino médio, eu não conseguia de jeito nenhum copiar as coisas de forma organizada. Me sentia mal com isso. Meus pais sempre falavam: “Felipe, você tem que ser mais organizado!”, e eu me ressentia muito com essa minha incapacidade.

Nunca consegui ser tão organizado assim.

Minhas anotações eram sempre cheias de desenhos intuitivos, associações, palavras soltas: ninguém entendia, só eu.

Mas eis que no livro que estou lendo (The mind-map book: How to use radiant thinking to maximize your brain’s untapped potential, algo como: O livro dos mapas mentais: como usar pensamento radiante para maximizar o potencial de seu cérebro, de Tony Buzan), ele fala exatamente sobre modos de fazer anotações, as vantagens e desvantagens desses modos.

Para começar, o cérebro humano precisa de muitas coisas para absorver conhecimento de forma eficaz através de anotações. O livro lista: linearidade, símbolos, análise, ritmo visual (sequência previsível de imagens), padrões, cores, imagem, visualização (imaginação), dimensão (proporção), associação. Ou seja, se uma anotação tiver tudo isso, você vai se lembrar de seu conteúdo com muito mais facilidade.

Mas o modo que usamos para fazer anotações é muito pobre em quase todas essas categorias. Só se salvam linearidade, símbolos (letras, números) e padrões (de letras e números). E todos nós sabemos que isso é muito pobre! Alguém aqui se sente motivado e entretido ao estudar pelo caderno de aula? É muito chato! Não prende atenção nenhuma. Aliás, esse é o modo de o cérebro dizer: “Tire esse caderno daqui!, ele está me entediando!”.

Então… o problema é que nunca fomos introduzidos a outro método de anotações.

Os grandes pensadores da humanidade sempre souberam da ineficácia do método padrão de anotações, mesmo que inconscientemente.

Anotação manuscrita de Leonardo da Vinci. Fácil de entender?

Vendo a figura acima, podemos inferir algumas coisas: nosso amigo Leonardo abusou de:

  • Associações;
  • Ritmo visual;
  • Dimensão;
  • Símbolos;
  • Visualização;
  • Imagens.

Com certeza nós, meros mortais, não entendemos nada do que está escrito/desenhado ali. Mas o que isso importa?  Nós não temos as mesmas sinapses nervosas de Leo; não temos as mesmas associações de Leo. O que importa é que ele entende essas anotações, e, com certeza, parece muito mais divertido e atraente estudar dessa forma.

Então, o que eu sugiro para as anotações é o seguinte: enquanto o professor estiver dando a aula, é recomendável que você não anote nada, só entenda. Depois, quando houver alguma pequena pausa no assunto, pegue somente as palavras-chaves do assunto. Mas não podem ser palavras quaisquer. Tem que ser palavras que lhe remetam alguma coisa. Por exemplo: se o assunto for modelos atômicos em química, eu faria assim:

Modelo esquemático e 'atraente' para uma anotação

Pronto, lembrar as coisas desse assunto ficaria muito fácil para mim. Abusei de desenhos, cores, associações.

Claro, esse é o meu jeito, levando em conta a minha criatividade. O negócio é você deixar-se levar pela ingenuidade criativa. Deverei falar mais sobre criatividade no próximo post.

Enfim, talvez esse método que eu uso não agrade, mas pelo menos é um novo modo de fazer anotações. Veja qual lhe agrada mais.

Alguém tem algum outro jeito diferente de anotar?

(Foto do manuscrito: copiada do livro de Tony Buzan. Desenhos pífios de minha autoria)

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O problema não é dinheiro

Pense com carinho: como você fazia seus trabalhos e suas pesquisas antes da internet? Provavelmente com aquelas velhas enciclopédias que emanavam aquele cheiro de conhecimento mofado e estático, correto?

E depois da internet? Nem precisava perguntar:

Depois do Google, o conhecimento ficou acessível, quase de graça, ao mundo todo.

Lá pelo século XVIII, quando começou a ser estruturada a educação pública na França, a única preocupação das autoridades era a formação de mão-de-obra minimamente qualificada para os trabalhos pesados em indústrias e fábricas. Imaginem como eram as aulas daquela época. Deviam ser um pouquinho monótonas.

Naquela época, porém, as aulas tinham o luxo de poder ser chatas. Sabem por quê? Porque os únicos detentores do conhecimento eram os professores. Ou seja, inconscientemente os alunos pensavam: “Que aula chata. Mas ok, tem que ser assim mesmo, só tenho esse jeito para me preparar pro meu emprego. Não ligo de sofrer punições físicas, podem bater em mim à vontade!, porque só vocês, professores, podem me preparar para o mercado de trabalho!”.

E hoje em dia?, será que a gente pensa igual?

Infelizmente, a maioria de nossos professores pensa que tem os mesmos privilégios do professor do séc. XVIII. Mas eles não perceberam que agora, com a internet, com o Google, todos têm acesso à informação. O poder de barganha do professor acabou.

Acabou! Tudo o que eu vejo na faculdade, tudo o que eu vi no colégio já tinha na internet. Pra quê assistir aula, então? Aquelas aulas chatas e sonolentas? É muito melhor ficar em casa.

Humm, aula boa...

Humm, aula boa...

O problema é que a escola/universidade não é apenas um lugar onde se absorve informação. Acho que seu papel mais importante é o de ambiente de descobertas, de relacionamentos, de amizade, de criatividade, de sonhos, de bem-estar. Esse ambiente é fundamental para o crescimento saudável das crianças e dos universitários.

Então temos o seguinte cenário: os professores, com suas aulas metódicas, muitas vezes tornam o ambiente escolar desagradável, desmotivando os alunos, prejudicando seu crescimento profissional e intelectual. Ao mesmo tempo, dependemos desse ambiente escolar para outras áreas de nossa vida.

O problema da educação não é dinheiro. O problema é o professor. Claro que dinheiro deixa todos motivados (até certo ponto), mas mesmo recebendo 1 milhão por mês, os professores têm que reavaliar todo o ensino, toda a função do professor: têm que sair do pedestal. Mas se o professor é a causa desse problema, também poderá ser a solução.

O professor não se tornou inútil: digo apenas que uma função do professor tornou-se dispensável: a de passar informações. Também não quero dizer com isso que o professor deverá parar de ensinar. Deve ensinar, sim, mas agora ele tem que perceber que o aluno tem que ser convencido a assistir a sua aula. E só se faz isso com duas coisas, além do ‘informar’ e do ‘ensinar’: motivando e entretendo.

Se vocês fossem professores, como motivariam e divertiriam seus estudantes? Se são estudantes, como as aulas poderiam ser mais motivadoras e divertidas?

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Primeiro post: o que esperar do blog?

Olá.

Fiz este blog para trazer ao mundo algumas ideias (minhas ou não) que possam de alguma forma contribuir para uma nova educação.

Ao longo dos anos de 2009 e 2010, tenho visto que o sistema educacional brasileiro e mundial é muito pouco eficaz no que diz respeito a uma educação plena, que extrapole a simples memorização de dados e fórmulas, que forme pessoas aptas a criar, liderar, sonhar e agir.

Indignei-me com isso. Na minha faculdade (faço eng. eletrônica na UFPE), a maioria absoluta dos alunos não quer ver aula. Antigamente, eles seriam vistos como ‘vagabundos, não querem nada com a vida’. Mas temos que tentar ver o lado deles (ou melhor, o nosso lado, porque também sou estudante).

As aulas são um saco. Todos nós sabemos; até os professores devem saber disso. No mundo de hoje, onde há tantas coisas que nos tiram atenção, precisamos de muito empenho para focarmos nossa atenção em alguma coisa. As aulas normais não conseguem mais corresponder a essa expectativa.

Espero que este blog sirva para contribuir com uma mudança significativa e estrutural na educação do Brasil. Estarei sempre recorrendo aos leitores pedindo sugestões e incitando discussões.

Felipe Duque

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