O problema não é dinheiro

Pense com carinho: como você fazia seus trabalhos e suas pesquisas antes da internet? Provavelmente com aquelas velhas enciclopédias que emanavam aquele cheiro de conhecimento mofado e estático, correto?

E depois da internet? Nem precisava perguntar:

Depois do Google, o conhecimento ficou acessível, quase de graça, ao mundo todo.

Lá pelo século XVIII, quando começou a ser estruturada a educação pública na França, a única preocupação das autoridades era a formação de mão-de-obra minimamente qualificada para os trabalhos pesados em indústrias e fábricas. Imaginem como eram as aulas daquela época. Deviam ser um pouquinho monótonas.

Naquela época, porém, as aulas tinham o luxo de poder ser chatas. Sabem por quê? Porque os únicos detentores do conhecimento eram os professores. Ou seja, inconscientemente os alunos pensavam: “Que aula chata. Mas ok, tem que ser assim mesmo, só tenho esse jeito para me preparar pro meu emprego. Não ligo de sofrer punições físicas, podem bater em mim à vontade!, porque só vocês, professores, podem me preparar para o mercado de trabalho!”.

E hoje em dia?, será que a gente pensa igual?

Infelizmente, a maioria de nossos professores pensa que tem os mesmos privilégios do professor do séc. XVIII. Mas eles não perceberam que agora, com a internet, com o Google, todos têm acesso à informação. O poder de barganha do professor acabou.

Acabou! Tudo o que eu vejo na faculdade, tudo o que eu vi no colégio já tinha na internet. Pra quê assistir aula, então? Aquelas aulas chatas e sonolentas? É muito melhor ficar em casa.

Humm, aula boa...

Humm, aula boa...

O problema é que a escola/universidade não é apenas um lugar onde se absorve informação. Acho que seu papel mais importante é o de ambiente de descobertas, de relacionamentos, de amizade, de criatividade, de sonhos, de bem-estar. Esse ambiente é fundamental para o crescimento saudável das crianças e dos universitários.

Então temos o seguinte cenário: os professores, com suas aulas metódicas, muitas vezes tornam o ambiente escolar desagradável, desmotivando os alunos, prejudicando seu crescimento profissional e intelectual. Ao mesmo tempo, dependemos desse ambiente escolar para outras áreas de nossa vida.

O problema da educação não é dinheiro. O problema é o professor. Claro que dinheiro deixa todos motivados (até certo ponto), mas mesmo recebendo 1 milhão por mês, os professores têm que reavaliar todo o ensino, toda a função do professor: têm que sair do pedestal. Mas se o professor é a causa desse problema, também poderá ser a solução.

O professor não se tornou inútil: digo apenas que uma função do professor tornou-se dispensável: a de passar informações. Também não quero dizer com isso que o professor deverá parar de ensinar. Deve ensinar, sim, mas agora ele tem que perceber que o aluno tem que ser convencido a assistir a sua aula. E só se faz isso com duas coisas, além do ‘informar’ e do ‘ensinar’: motivando e entretendo.

Se vocês fossem professores, como motivariam e divertiriam seus estudantes? Se são estudantes, como as aulas poderiam ser mais motivadoras e divertidas?

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5 Comentários

Arquivado em Nova sociedade, Novo professor

5 Respostas para “O problema não é dinheiro

  1. É sempre bom saber que há um colega visionário assim como eu…

    Penso que o professor deverá ser, acima de tudo, amigo do aluno. Atualmente, me parece que alunos e professores estão guerreando em lados opostos, como inimigos. Na verdade, não sei bem o que motivou essa guerra, mas ela é extremamente prejudicial às duas partes. Já vi casos onde o professor nunca conseguiu dar uma aula decente, enquanto os alunos conseguiram que ele se demitisse. Se professor e aluno fossem amigos de verdade, sei que não haveriam fatos desse tipo.

    Outro ponto importante é a teoria do “faça você mesmo”. O professor deve incentivar o aluno a construir o conhecimento por ele mesmo:
    Nas aulas de Química e Física, por exemplo, os alunos fariam experiências;
    Nas aulas de Biologia, uma visita a algum jardim, ou coisas do gênero;
    Nas aulas de Matemática, procurar na escola algumas aplicações práticas da disciplina;
    Nas aulas de Geografia, cartografar o bairro, olhar as estrelas (em uma aula noturna), ou outra experiência;
    Nas aulas de Português, conversar;
    Nas aulas de Filosofia, perguntar;
    Nas aulas de Sociologia, fazer pesquisas de opinião;
    Nas aulas de História, pesquisar sua própria história de família…

    E por aí vai.

  2. Isso mesmo, concordo.

    Mas o que eu vejo nas aulas que frequento é o eterno mau humor dos professores. E olhe que estou falando de professores de uma das melhores universidades federais do Brasil, onde tem toda uma estrutura tecnológica e intelectual pra ajudar.

    Esse mau humor impede qualquer manifestação ‘amigável’ dos alunos. Parece que os professores odeiam dar aulas, odeiam os alunos. Talvez isso tudo seja porque os professores se ‘acham’ demais, sabe? É isso que eu percebo. E por isso eu digo que eles têm que sair do pedestal. Têm que conhecer os alunos, fazer uma educação não-generalizada, saber o background de cada aluno (ou pelo menos mostrar interesse nisso). Têm que ser divertidos. Contar piada mesmo, pra descontrair quando perceber que o povo tá dormindo ou relaxado. O aluno tem que sentir que o professor é um cara normal.

    Talvez isso tudo resuma no que você disse: tem que ser amigo do aluno.

    Quanto às aulas serem mais práticas, concordo plenamente, sem tirar nem pôr.

  3. Muito interessante, Duque.

    Nesse texto vídeo http://www.ted.com/talks/ken_robinson_says_schools_kill_creativity.html – por sinal, recomendo muito o autor e todos os vídeos do site também. O projeto é muito bom – o cara fala assim: “Eu não quero o professor me ensinando algo que posso aprender nos livros. Quero algo novo, que não se encontre lá fora.”

    Hoje eu vejo que o professor deve passar na aula muito mais sobre o contato dele com o conteúdo no “mundo real”, fora as universidades, do que o conteúdo em si. Claro, aplicações práticas da matéria, principalmente as que facilitam nossas vidas, são sempre bem-vindas também.

  4. Felipe Falcão

    Excelente o post e os comentários, senti isso na pele durante toda a minha vida escolar, principalmente durante o ensino médio. Os comentários também foram excelentes, e eu me identifiquei bastante com o título indicado pelo Paulo Roberto: a escola realmente mata a criatividade, percebi isso na prática, infelizmente.

  5. Correção: *fora Das universidades.

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