Nossa educação mata a criatividade?

Olá. Este post é baseado no meu discurso no curso do meu amigo @manualdoheroi e num vídeo de Sir Ken Robbinson.

Quando eu estava cursando a disciplina de cálculo 3, estudando o assunto de integral de linha, a professora estava mostrando como calcular uma dada integral bem singular, que tinha duas variáveis de integração (não precisa entender isso). Eu não estava entendendo o modo padrão que a professora estava usando para explicar, então perguntei: “Professora, é como se eu estivesse integrando tal função no eixo x e tal função no eixo y?, e depois somo os dois resultados?”. Ela parou para pensar e disparou: “Não sei, estou aqui para fazer vocês calcularem“.

Pensei com meus botões: “Ué, o jeito que pensei faz todo sentido, e é muito mais fácil aprender dessa forma. Não seria melhor a turma toda entender assim?”.

A partir daí comecei a ver que a educação institucional mata nossa criatividade. Talvez possamos entender isso melhor com um teste que foi feito em algum lugar do mundo, em algum ano recente. Imagine um clip de papel.

Sim, um clip de papel.

Agora, pergunto: “Quais os possíveis usos de um clip de papel?”. Fale tudo o que vem à sua cabeça. (Tempo para pensar…)

10, 9, 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1, 0.

Acabou o tempo. É bastante provável que as respostas mais comuns tenham sido as mais esperadas: tudo relacionado a papel, ou destrancar portas. Entretanto, o teste original foi feito com crianças de 5 a 9 anos, e as respostas foram: “O clip pode ser de borracha?, pode ter 3 metros de altura?, pode ser colorido?”.

Para chegar aonde desejo, contarei outra historinha. Uma menininha de 5 anos estava na sala de aula, mas não prestava atenção na aula, estava compenetrada desenhando no caderno. A professora percebeu e chegou junto dela. Viu um desenho bem colorido, bem imaginativo, muito incomum – criativo. Perguntou-lhe:

– O que você está desenhando?.

– Deus.

– Ora, mas ninguém sabe como Deus é!, ninguém sabe sua aparência!

– Daqui a 5 minutos todo o mundo vai saber.

Imagem retirada de anacristinasouza.arteblog.com.br

Mas qual terá sido a principal diferença entre nós, vigorosos jovens e adultos, e essas crianças? Básica: nós fomos educados, nossa mente foi ‘contaminada’ pela educação institucional. Com a educação padronizada, é comum perdermos a capacidade de criar, porque temos o receio do erro. A verdade é que fomos educados para não errar, porque essa é uma educação voltada ao meio empresarial, onde um erro pode custar milhões de reais. Mas é o erro, principalmente na juventude, que propicia o crescimento e a felicidade pessoal. É o erro que nos permite descobrir qual é o nosso sonho, qual é a atividade na vida que nos faz sentir bem.

Todos nós nascemos artistas, mas somos educados para desprezar esse talento, porque matemática e português são muito mais importantes do que música e teatro. Será que a arte é tão não-importante assim? A arte estimula a criatividade, a experimentação, o questionamento, em todos os ramos. O nosso mundo precisa disso.

Quando foi a última vez que você fez algo criativo?

Não estou dizendo para abandonarmos as matérias ‘normais’, até porque existem artistas em todos os ramos, inclusive na ciência. Quero dizer que nosso ensino não pode nos privar da nossa arte.

Então, conto com os assíduos leitores deste blog para não deixar a criatividade esvanecer. Estimulem-na, não se inibam. Falem muita besteira, isso é muito bom pra criatividade. Pensem sempre como uma criança.

E pensem nisto: sendo a arte tudo aquilo que lhe fortalece a criatividade, qual é a sua arte? Como estimular a arte nas escolas e universidades?

Anúncios

19 Comentários

Arquivado em Nova escola, Nova sociedade, Nova universidade, Novo professor

19 Respostas para “Nossa educação mata a criatividade?

  1. Rodrigo

    Fascinante.

  2. Ilda Moraes

    >>Clips também servem para escrever uma carta?! =x

    Ótimo post Duque, você tem talento.

  3. Hahahahah, o pior é que na hora eu nem tinha percebido que vc tinha entendido errado, só percebi depois.

    Obrigado!

  4. Quero Anonimato

    A China tem uma educação extremamente padronizada e rigorosa e está chegando no topo do mundo. Tal rigor não funcionaria aqui, pois somos inasiaticáveis, somos uma cultura muito oposta!

  5. Mas a China está chegando ao topo de uma forma insustentável. O regime democrático liberal tende a dominar os outros regimes; mais cedo ou mais tarde, a China vai se fragmentar por causa disso, e seu modelo de educação com certeza vai ser questionado.

    Tenho outro questionamento: para você, o que significa chegar ao topo?

  6. Luísa

    Impôr parâmetros para o pensamento está muito ligado também à forma opressora em que se dá o processo de transmissão do conhecimento, o qual exibe como máxima a ideia do aluno como, de fato, aponta a literalidade do termo: “sem luz”; o “educando” reduzido à condição servil e passiva de ser apenas o educando.
    E é justamente devido a esse pensamento que se impõe o tolhimento da capacidade de criar. Expor ao “educador” uma maneira diferente de pensar determinada questão é inverter os papéis no processo. Como essa situação subverte o sistema opressor, é de plano repreendida por aquele que, supostamente, “tem a luz”.

    A arte é um movimento dissidente desse pensamento. E é um movimento de que todos nós somos integrantes em potencial.
    Por isso não concordo quando você diz que se perde a capacidade de criar.

    É só uma questão de estímulo. Basta uma faisquinha para nos vermos livres para o desfrute dos nossos próprios pensamentos.

    No mais, ótimo texto. Melhor ainda é vê-lo lúcido para questões do tipo.

  7. Felipe Falcão

    Muito bom, mais uma vez xD

  8. Quero Anonimato

    Chegar ao topo para mim significa isso que está acontecendo com a China. Incomodando os EUA.

    Sustentabilidade depende muito mais de novas políticas do que da educação dos jovens. Tanto é, que um ensino institucionalizado pode, da mesma forma, impor rigorosos parâmetros objetivando a sustentabilidade..

    Repito que a asiáticos são bem diferentes de nós. Ocidentais são bem mais sonhadores.

  9. A sustentabilidade de que falei não era só ambiental, mas num sentido mais amplo: sendo a China cada vez mais ‘contaminada’ com a democracia liberal do ocidente, é quase certo que os chineses vão querer aderir a essa sociedade sonhadora. Então toda essa institucionalização vai acabar.

  10. Quero Anonimato

    Esse é um dos grandes dilemas do século XXI. Depois da intensa globalização, não sabemos se os chineses conseguirão manter a sociedade em um regime fechado.

    Não tenho tanta certeza quanto você, pois lutar contra o poder é algo que depende de uma série de fatores. A China está longe de uma crise, a população envelhecerá, revoluções dependem dos jovens, para alguns países é melhor manter a sociedade chinesa do jeito que está, etc.

  11. Acho que o poder que vai acabar com esse regime da China será, direta ou indiretamente, das empresas que quiserem conquistar o mercado chinês. Empresas querem ambiente tranquilo, estável política e socialmente. Com a globalização, é praticamente impossível viver sem o capital de empresas estrangeiras. Mais cedo ou mais tarde, o governo chinês vai ver que não vai conseguir viver só de sua imensa poupança nacional; vai ter que recorrer a capital externo, que vai exigir o ambiente de tranquilidade política.

  12. Eu sempre digo isso aos quatro cantos do mundo! Somos “educados demais”. Acabamos por ser oprimidos. É inevitável. O troço se torna ruim mesmo quando nos submetemos a educadores pífios – como deve ser essa sua professora aí.

  13. Verdade, Vítor. Boa expressão: “somos educados demais”.

    A educação perde seu valor quando busca a padronização, a massificação. Essa educação, a meu ver, é totalmente dispensável. Mas o professor tem papel fundamental pra mudar isso. Pena que poucos são os que sabem desse poder.

    Abraço.

  14. Joseane

    Perfeito, Felipe o seu post. Destaco essa parte:”…é comum perdermos a capacidade de criar, porque temos o receio do erro. A verdade é que fomos educados para não errar…”. O medo nos paralisa, nos impede de criar ,de ousar e de buscar o diferente, o novo, o inusitado. Muito bom!

  15. Igor Niemeyer

    Desde a quinta série eu vivia desenhando nos cadernos, na carteira e até nas provas. Alguns já até me disseram pra eu parar com essa bobagem e começar a estudar mais matemática. Cheguei até a conseguir uma boa classificação em uma olimpiada de matemática e tal.

    Parei de estudar matemática e voltei a desenhar. Hoje eu tenho muita vontade de dar aulas de sociologia e história. Mesmo assim continuo com meus lapis, canetinhas e tintas (tenho 18 anos).

    Confesso ter tido muito apoio da minha escola no ensino médio, quando propus uma idéia de fazer uma exposição de desenhos logo liberaram um espaço. Mas conheço outras escolas (por via de amigos) que nem tem aula de artes, ou algum tipo de incentivo para tal prática eles tem. (Seja música, teatro, etc.)

    Infelizmente a educação vem nos moldando e colocando-nos em formas, sim, formas de bolo. Lembro do meu professor de filosofia falando disso. “Gente, a escola é uma forma de bolo e vocês são a massa. Os professores e os livros servem nada mais do que para moldar vocês para uma ‘sociedade’ e/ou ‘mercado de trabalho'” – Nunca esquecerei disso hahaha.

    Belo post por sinal!
    Abraço!

  16. Pois é, agradeça sua escola por não ter acabado com sua vontade de se expressar pela arte.

    Relembrando parte de minha vida na escola, vejo agora que tem muita, mas MUITA coisa que os professores fazem que, de alguma forma, nos tolhem tanto o senso crítico quanto a independência intelectual. Por exemplo: por que o ‘cabeçalho’ que fazíamos no nosso caderno tinha que ter tantos detalhes?, e por que éramos obrigados a decorar esses detalhes bestas? (pelo menos no meu colégio isso acontecia). Por que desde cedo o aluno que não presta atenção na aula é tido como ‘não quer nada com a vida’?, por que o próprio aluno não é consultado pra saber o que ele quer fazer da sua vida? Mesmo sendo criança, é possível que entendamos um pouco sua mente.

    Tem muita coisa desse tipo que são, na minha opinião, irracionais, e só fazem deteriorar o ambiente escolar.

    Muito obrigado pelo elogio, abraço!

  17. Pingback: 100 mil dólares para você largar a faculdade | Papo de Homem – Lifestyle Magazine

  18. Igor Niemeyer

    No ensino fundamental foi bem assim mesmo. Decorando tabelas, nomes e uma porrada de coisa inúteis.

    Lembrei de um senador (que por sinal eu gosto) falando que o maior problema está na base da educação, e pensando bem é isso mesmo, por que com uma base boa que avançamos bem né? 🙂 Foi o Cristovam Buarque quem disse isso, deve ter uns 2 anos.

  19. Acho que as escolas são só um reflexo do mercado de trabalho. O mercado de trabalho atual não valoriza a criatividade embora digam que sim. A maioria das empresas está apenas preocupadas em contratar pessoas obedientes e nada mais. Idéias inovadoras são sempre desprezadas pois implicam em mudanças na forma de trabalhar. Culturalmente os empresários brasileiros têm esse medo de mudanças, o medo de arriscar. Isso explica por exemplo porque temos poucas empresas se arriscando no mercado internacional. Elas se acomodaram com o mercado interno até porque as regras de mercado as protegem das empresas novas.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s