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Um novo vestibular

Na minha prova do vestibular, fiz 80 questões de múltipla-escolha (marcar x) do tipo: “Qual o tipo de ovo dos artrópodes?”. As opções eram: telolécito, oligolécito, heterolécito e centrolécito. É óbvio que a resposta certa é centrolécito, porque os ovos dos artrópodes não têm polos e o vitelo está concentrado ao redor do núcleo.

Ovos e seus vitelos.

Convenhamos, se eu não tivesse adquirido esse conhecimento tão valioso, será que eu não estaria apto a entrar numa universidade?

Desde cedo, somos instruídos a compartimentalizar muito as coisas da vida: todas as disciplinas se fecham em si mesmas, todos os professores querem mostrar que sua disciplina é a mais importante, e quem sai perdendo com essa mesquinhez é o aluno, que tem que estudar coisas absolutamente desnecessárias pra vida.

Mas eu acho que todos já estão cansados de escutar os defeitos do nosso vestibular. Vou tentar trazer algumas soluções que pensei que talvez possam melhorar a avaliação dos candidatos, e que estejam mais contextualizadas com o mundo.

  • Primeiro: tem que ter mais questões abertas e discursivas. As questões têm que trazer problemas, reais ou não, e o aluno tem que responder escrevendo mesmo, usando os conhecimentos que tem. Ex.: um produtor de cana-de-açúcar tem uma pequena plantação de cana-de-açúcar. Levando em conta vários aspectos reais da plantação (tipo do terreno, forma do terreno, subprodutos da cana, entre-safra) e seus conhecimentos gerais, o que o produtor poderia fazer para aumentar os lucros? Nessa questão, o aluno poderia abordar: o terreno deve ser circular (maximiza área) ou quadrado (porque terreno circular é difícil né), deve ser feito um tratamento contra laterização (óxidos que atrapalham o desenvolvimento da cana), deve investir bastante no álcool por causa dos problemas com petróleo, na entre-safra poderia cuidar do bagaço da cana para biomassa etc etc.
  • Segundo: sou a favor de mais questões de opinião, mas opinião aberta mesmo, fugindo um pouco ao pragmatismo das dissertações. É nesse tipo de questão que vemos a mentalidade do candidato. Ex.: Qual sua opinião sobre a pirataria?. Seriam analisados: coerência, conhecimento sobre o assunto (inclusive argumentos contrários à sua opinião), coesão em todo o texto.
  • Terceiro: deve estimular a criatividade. Por exemplo: Imagine que a morte tenha tirado férias por tempo indeterminado, ou seja, ninguém mais morre, nenhum tipo de animal morre. Faça um prognóstico de como seria o mundo durante esse período de férias da morte. Nesse caso, seria avaliado um mínimo de coerência e coesão, mas interessaria muito mais a quantidade de aspectos que o candidato escreveria. (José Saramago tem um livro exatamente sobre isso; pra diferenciar, o assunto poderia ser: ‘imagine que ninguém mais nasça’)

Calma, ela tirou umas férias.

Eu entendo que a correção desses tipos de questões seria muito mais trabalhosa e subjetiva (talvez nem tanto), mas com certeza isso seria muito mais justo e construtivo para os estudantes. Imaginem só, em vez de decorar cada detalhe das algas rodofíceas e dinoflageladas, eles poderiam treinar a criatividade com alguma arte, algum livro, ou ler sobre alguma coisa da vida, porque isso seria cobrado no vestibular. Talvez assim os alunos se envolvam mais nos estudos, e o vestibular cumpra seu papel de selecionar os melhores alunos, e não as melhores máquinas.

Mesmo assim, são milhões de pessoas fazendo as provas, milhões de correções exaustivas, porque, afinal, todos querem entrar na universidade. Mas uma pergunta me veio à tona enquanto escrevia este post: será que a universidade deve ser para todos? Será que somos imbuídos desde criança a pensar que o único caminho para uma vida legal é a universidade? Será que se nossa criatividade e nosso autoconhecimento fossem desenvolvidos desde cedo na escola, não poderíamos pensar em outro caminho?

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