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Educação a distância tem futuro?

Olá. Muito se fala sobre a integração entre educação e tecnologia em sala de aula: slides, vídeos e internet certamente podem mudar o ambiente escolar, mas para mim, o papel fundamental da tecnologia na educação é a possibilidade do ensino a distância (EAD). Mas por ser algo tão incipiente, há diversos problemas que deverão ser enfrentados.

Talvez o maior deles seja o alto grau de dispersão dos estudantes num mundo dominado pela megalomania das mídias, imagens e sons, causando uma quase inevitável desorganização pessoal nos estudos. Isso, somado à aparente liberdade que o EAD propicia, pode ser fatal para esse novo estilo de ensino. Entretanto, cedo ou tarde, o estudante terá que adquirir essa organização pessoal; talvez com o EAD, esse urgência apareça mais cedo, o que poderá lhe causar um amadurecimento saudável nessa área.

Outro problema, talvez mais estrutural, é que nosso sistema de ensino ainda é muito voltado ao ensino, e não à aprendizagem. Esclareço: ainda se espera que todo o conhecimento venha do professor. Não é comum o professor estimular o aluno a procurar informações fora da aula. Essa falha certamente significará o fracasso total do EAD. Com a distância física entre aluno e professor, é impraticável que o aluno dependa tanto do professor. A solução para esse problema é um tanto mais complexa, porque exige um reposicionamento do professor. Ele deverá deixar de ser somente detentor de conhecimento para ser um agente de mudança nos alunos; deverá incitar o pensamento próprio do estudante a fim de propiciar-lhe autonomia intelectual necessária para um estudo mais autodependente.

A nova sala de aula

Existe ainda uma questão que provavelmente nunca poderá ser resolvida: o ambiente escolar seria degenerado. Não haveria interação ‘normal’ entre colegas de classe. Mas isso só será um grande problema caso o EAD seja adotado como o sistema principal de ensino, coisa que, acredito, nunca acontecerá.

Então, apesar de muitos poréns, penso que o EAD abre mais portas do que se pensava. Só o fato de haver possibilidade de um cara da África fazer mestrado em Harvard pela internet me é esperançoso.

As distâncias em todo o mundo estão diminuindo; é hora de a educação entrar nesse mundo. E você? O que acha do EAD? Quais os outros problemas?, quais as portas que podem ser abertas?

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O problema invisível das universidades

Olá.

Recentemente, eu e alguns amigos (@hrxm e @borbaline) reabrimos o Diretório Acadêmico (DA) de engenharia eletrônica da UFPE com o intuito de melhorar exponencialmente todos os aspectos do nosso curso. Para isso, começamos a procurar entender os problemas que assombram o departamento.

Então, na quinta (28/4), conversamos com o chefe do departamento, Hélio Magalhães. Foi necessário somente falarmos: “Queremos melhorar o curso”, que ele começou a discorrer sobre o maior problema, em sua opinião: a burocracia.

Foi algo incrível. Ele falou que para comprar UMA fechadura nova, tem que abrir licitação nacional e contactar no mínimo 3 empresas de todo o Brasil. Mas ninguém vende uma só fechadura!; ‘É mais fácil comprar 300 mil fechaduras do que uma só’, disse ele.

A burocracia se expande para suprir as necessidades da burocracia.

Uma coisa que se faz normalmente em todos os departamentos é a rotatividade dos equipamentos/instrumentos. Quando um setor não está utilizando, outro setor pega emprestado. Mas o que acontece muito frequentemente é vários setores do departamentos precisarem de tal equipamento ao mesmo tempo. E o que acontece? Briga interna.

Esse problema é seríssimo. Mas alguém pode questionar: “Essa burocracia é para evitar corrupção, gastos indevidos com o dinheiro público”. Ok, até certo ponto isso é tolerável. Mas o professor Hélio sugeriu uma ideia interessante: poderia ser destinado a todos os departamentos um dinheirinho, tipo uns 5 mil reais por ano, que poderiam ser gastos sem licitação para coisas corriqueiras, tipo uma fechadura. Esse dinheiro fica sujeito a corrupção? Sim, mas o dano aos cofres públicos seria mínimo.

Penso que a causa de toda essa burocracia é a desconfiança do povo nas autoridades públicas. Lógico, elas fazem por merecer todo esse descrédito, mas até que ponto essa desconfiança começa a prejudicar o próprio povo? Como combater isso?

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Ensino superior gratuito ou privado?

Olá. Semana passada, fui a uma palestra de @soficacmonteiro, de apenas 16 anos, que discorreu sobre diversos gargalos da educação brasileira, comparando-a a sistemas educacionais de outros países. Um fato que me chamou atenção foi a preferência dela por um ensino superior privado, em vez do consolidado ensino superior público do Brasil.

Ela destacou que os gastos para custear um ensino superior de qualidade são muito maiores do que se poderia gastar com a gestão do ensino fundamental/médio de igual qualidade. Foi um comentário muito interessante para mim; nunca tinha pensado nisso antes. Logo que ela falou isso, lembrei-me de um equipamento com o qual trabalho na minha iniciação científica, chamado sputtering, que custou somente 200 mil dólares. Isso tudo saiu do bolso do Estado. É lógico que é mais um investimento do que um gasto, mas é muito dinheiro. Além disso, manter umas 40 universidades federais em todos os estados do Brasil exige uma burocracia enorme, o que atrasa muitas obras e melhorias.

Olha aí a maquininha de 200 mil dólares.

Outro problema com o financiamento público das universidades é a falta de controle tanto de assiduidade quanto de produtividade dos professores/pesquisadores. Vejo recorrentemente professores de diversas áreas da UFPE que se sentem confortáveis com o cargo e com o salário, entravando o progresso científico, dedicando-se somente às aulas (e ainda assim essas aulas são, geralmente, péssimas).

Para terminar, Sofia deu uma boa dica para quem se sente desconfortável com o fato de pagar por uma universidade: sendo o ensino fundamental/médio público de qualidade, as famílias estarão livres dos gastos com escolas particulares e cursinhos, podendo poupar para o ensino superior.

Não tenho uma opinião formada ainda. Acredito que o Estado não deve ser banido da gestão das universidades, mas talvez ele deva gerir somente as mais estratégicas e consolidadas, deixando as outras com gestão privada séria, e não a que estamos acostumados a ver por aí.

O que vocês acham? Será que o Estado consegue dividir o foco do investimento no ensino fundamental e superior? Ou será que se ele privatizar um, melhorará o outro?

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Morar na universidade: solução ou problema?

Olá. Este post é sugestão  direta do meu amigo @casevictor.

Todos os dias, gasto cerca de 1 hora para ir à UFPE e 1h 30min para voltar (Vou com meu pai – ele ensina lá – e geralmente volto de ônibus). São no mínimo 2h 30min de tempo inútil, jogado fora, sem contar o incômodo de acordar supercedo e chegar tarde em casa, tornando a noite também pouco produtiva, e arejando o ambiente para um intermitente mau humor.

Pensando nisso, Victor Casé sugeriu: por que não podemos morar na universidade, como nos Estados Unidos?

Que ideia interessante! Morando na universidade, estaríamos sempre rodeados pelos nossos colegas; seria muito mais fácil organizar uma reunião – de qualquer teor; o meio ambiente seria certamente muito mais agradável e relaxante do que o meio urbano. Creio também que esse tempo em que o universitário estaria sozinho seria de inestimável importância para o crescimento e amadurecimento interno dele. Poderia pensar, com muito menos pressões familiares, sobre si mesmo, sobre que caminho quer para sua vida.

Entretanto, há alguns pontos negativos também. Tudo gira em torno das limitações físicas das universidades brasileiras para abrigar toda a população universitária. A UFPE, por exemplo, tem mais de 30 mil estudantes,quase 10% da população da cidade de Olinda; mas a área da UFPE é menor do que 1% da área daquela cidade. Como abrigar tanta gente? Só para se ter uma ideia, a universidade de Harvard tem 29(VINTE E NOVE!) prédios de residência estudantil, enquanto a UFPE só tem 1.

Uma residência estudantil de Harvard.

Além disso, no Brasil, a tendência de superlotação universitária seria só piorar. É reconhecido nacionalmente (e equivocadamente) que ‘quem não vai pra faculdade é vagabundo‘; talvez o objetivo mais unânime do jovem brasileiro seja o de entrar na universidade. Isso inflacionaria ainda mais o já escasso espaço físico das nossas universidades.

Também pesa bastante a distância da família. Morar sozinho, apesar da aparente liberdade, é um dos maiores desafios para os jovens. Morando com a família, podemos usufruir muitas coisas que ‘já estão prontas’, enquanto que morando sozinho, nós mesmo temos que fazer essas coisas, tomando-nos um pouco da liberdade.

Enfim, acho que a morada na universidade seja impossível retroativamente, ou seja, nossas universidades atuais não comportariam de jeito nenhum sua população: só nos resta alimentar esse sonho com futuras construções bem planejadas para esse fim.

Pergunto: será que as universidades poderiam exigir uma mensalidade para fornecer o conforto de sua morada? Vocês pagariam? Quais seriam outros pontos positivos e negativos?

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Procura-se uma educação empreendedora

Olá. Na metade do ano de 2009, entrei despretensiosamente na AIESEC de Recife, organização não-governamental internacional cuja missão, dentre outras, é a de formar os futuros líderes. Mas como se forma um líder?, é só estudar toda aquela teoria toda arrumadinha sobre ‘o que é liderança‘?

O método da AIESEC de fomentar a liderança em seus membros é bem simples: são-nos dadas oportunidades de liderança, de liderar um grupo com um certo objetivo, e aí tentamos aplicar a teoria à prática. Tive a oportunidade de exercer um cargo de liderança, que, apesar de não ter sido nem um pouco parecido com o que havia planejado, foi uma experiência absurdamente enriquecedora pra mim em todos os aspectos (menos financeiro, porque o trabalho é voluntário).

Não só durante o cargo de liderança, mas enquanto estive imerso na atmosfera da AIESEC, senti-me um empreendedor, alguém que traça objetivos e vai em busca deles, alguém pró-ativo. Percebo que falta esse tipo de educação empreendedora no Brasil. Como diz @manualdoheroi, a faculdade nos ensina a ser empregados. É claro que há muita gente que não ambiciona cargos de lideranças, mas é importantíssimo que esse tipo de ambição seja incentivado.

Mas como poderíamos incentivar a educação empreendedora?

Quem você quer ser?

Estava discutindo com Henrique Reis sobre algum aspecto da educação, e ele surgiu com a seguinte ideia: “As escolas e as universidades poderiam ter cursos não necessariamente acadêmicos, tipo culinária, línguas, literatura não só para os estudantes, como para toda a comunidade”. Para complementar essa ideia, pensei que os próprios alunos poderiam organizar tudo isso. Haveria um comitê de organização de uns 5 ou 6 (talvez mais) alunos, dos quais um seria o presidente, e um tutor da escola acompanharia o grupo. Então, esse comitê pensaria em tudo: local, horário, material humano, recursos etc. Acredito que seria uma oportunidade ímpar para o desenvolvimento pessoal e profissional dos alunos.

Pense bem. Isso não custaria quase nada. Só depende da força de vontade, do desejo de querer uma educação que abra as portas pros estudantes. E veja como isso pode ter desdobramentos incríveis:

No Japão, uma empresa de produção de aço, Nippon Steel, sofria com a falta de mão de obra qualificada para seus diversos setores: desde marketing até técnico em metalurgia. O CEO da empresa, num ato incrivelmente empreendedor e visionário, começou a fazer parcerias com as universidades de Tóquio, fornecendo bolsas para iniciação científica em diversos cursos que não tinham necessariamente algo a ver com o ramo da empresa. Perguntado sobre essa possível ‘falta de foco’ na distribuição de bolsas, o CEO respondeu: “Estamos somente interessados na experiência que uma iniciação propicia ao estudante: formulação do problema, investigação, solução. O tema em si não interessa: o que importa é o processo, este é insubstituível“.

O que eu quero dizer é que os resultados de uma ação empreendedora reverbera em todo o ambiente à sua volta. O CEO da Nippon Steel mostrou-se diferenciado, sensível, e isso refletiu na experiência única que milhares de universitários tiveram com a iniciação científica patrocinada pela empresa. Ou seja, um simples empreendimento mudou a vida de milhares de pessoas e famílias.

Nesse ritmo de empreendedorismo, temos uma grande oportunidade para quem deseja conhecer mais sobre isso e conhecer muita gente envolvida nesse ramo: o CPEJE. Visite o site e conheça. Vale muito a pena.

E vocês? Como incentivar a liderança, o empreendedorismo nos jovens? Vocês acham mesmo que isso é importante?

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Um novo vestibular

Na minha prova do vestibular, fiz 80 questões de múltipla-escolha (marcar x) do tipo: “Qual o tipo de ovo dos artrópodes?”. As opções eram: telolécito, oligolécito, heterolécito e centrolécito. É óbvio que a resposta certa é centrolécito, porque os ovos dos artrópodes não têm polos e o vitelo está concentrado ao redor do núcleo.

Ovos e seus vitelos.

Convenhamos, se eu não tivesse adquirido esse conhecimento tão valioso, será que eu não estaria apto a entrar numa universidade?

Desde cedo, somos instruídos a compartimentalizar muito as coisas da vida: todas as disciplinas se fecham em si mesmas, todos os professores querem mostrar que sua disciplina é a mais importante, e quem sai perdendo com essa mesquinhez é o aluno, que tem que estudar coisas absolutamente desnecessárias pra vida.

Mas eu acho que todos já estão cansados de escutar os defeitos do nosso vestibular. Vou tentar trazer algumas soluções que pensei que talvez possam melhorar a avaliação dos candidatos, e que estejam mais contextualizadas com o mundo.

  • Primeiro: tem que ter mais questões abertas e discursivas. As questões têm que trazer problemas, reais ou não, e o aluno tem que responder escrevendo mesmo, usando os conhecimentos que tem. Ex.: um produtor de cana-de-açúcar tem uma pequena plantação de cana-de-açúcar. Levando em conta vários aspectos reais da plantação (tipo do terreno, forma do terreno, subprodutos da cana, entre-safra) e seus conhecimentos gerais, o que o produtor poderia fazer para aumentar os lucros? Nessa questão, o aluno poderia abordar: o terreno deve ser circular (maximiza área) ou quadrado (porque terreno circular é difícil né), deve ser feito um tratamento contra laterização (óxidos que atrapalham o desenvolvimento da cana), deve investir bastante no álcool por causa dos problemas com petróleo, na entre-safra poderia cuidar do bagaço da cana para biomassa etc etc.
  • Segundo: sou a favor de mais questões de opinião, mas opinião aberta mesmo, fugindo um pouco ao pragmatismo das dissertações. É nesse tipo de questão que vemos a mentalidade do candidato. Ex.: Qual sua opinião sobre a pirataria?. Seriam analisados: coerência, conhecimento sobre o assunto (inclusive argumentos contrários à sua opinião), coesão em todo o texto.
  • Terceiro: deve estimular a criatividade. Por exemplo: Imagine que a morte tenha tirado férias por tempo indeterminado, ou seja, ninguém mais morre, nenhum tipo de animal morre. Faça um prognóstico de como seria o mundo durante esse período de férias da morte. Nesse caso, seria avaliado um mínimo de coerência e coesão, mas interessaria muito mais a quantidade de aspectos que o candidato escreveria. (José Saramago tem um livro exatamente sobre isso; pra diferenciar, o assunto poderia ser: ‘imagine que ninguém mais nasça’)

Calma, ela tirou umas férias.

Eu entendo que a correção desses tipos de questões seria muito mais trabalhosa e subjetiva (talvez nem tanto), mas com certeza isso seria muito mais justo e construtivo para os estudantes. Imaginem só, em vez de decorar cada detalhe das algas rodofíceas e dinoflageladas, eles poderiam treinar a criatividade com alguma arte, algum livro, ou ler sobre alguma coisa da vida, porque isso seria cobrado no vestibular. Talvez assim os alunos se envolvam mais nos estudos, e o vestibular cumpra seu papel de selecionar os melhores alunos, e não as melhores máquinas.

Mesmo assim, são milhões de pessoas fazendo as provas, milhões de correções exaustivas, porque, afinal, todos querem entrar na universidade. Mas uma pergunta me veio à tona enquanto escrevia este post: será que a universidade deve ser para todos? Será que somos imbuídos desde criança a pensar que o único caminho para uma vida legal é a universidade? Será que se nossa criatividade e nosso autoconhecimento fossem desenvolvidos desde cedo na escola, não poderíamos pensar em outro caminho?

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